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História da Genética no ENEM: Como as Ideias Pré-Mendelianas Prepararam o Caminho para Mendel

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Quando o ENEM cobra genética, ele quase sempre quer que você entenda a lógica por trás das explicações sobre hereditariedade, não apenas que decore nomes. Por isso, conhecer as concepções pré-mendelianas é útil: elas mostram quais eram as dúvidas, quais hipóteses pareciam plausíveis e por que a proposta de Mendel foi tão revolucionária. Antes de genes, DNA e cromossomos, a pergunta central era simples e poderosa: como pais transmitem características aos filhos? A dificuldade era que, sem microscopia avançada e sem biologia molecular, as respostas dependiam de observação, filosofia natural e analogias.

O primeiro ponto importante é que “hereditariedade” nem sempre significou o que hoje entendemos. Durante muitos séculos, a herança de características foi explicada misturando biologia com ideias culturais. Havia uma percepção cotidiana de que filhos se pareciam com os pais, mas também a constatação de que irmãos podiam ser diferentes e que certos traços “pulavam gerações”. O desafio era propor um modelo que explicasse semelhanças e variações ao mesmo tempo, algo que as ideias antigas raramente conseguiam fazer de maneira consistente.

Na Antiguidade, pensadores como Hipócrates e Aristóteles discutiram a origem das características dos descendentes. Hipócrates defendia uma noção que, em linguagem moderna, lembra a ideia de “partículas” vindas de todas as partes do corpo, como se cada órgão contribuísse com algo para formar o novo indivíduo. Essa linha de pensamento favoreceu, ao longo do tempo, uma explicação muito intuitiva: se o corpo muda, então aquilo poderia ser transmitido. Já Aristóteles propôs uma explicação diferente, na qual o “princípio organizador” estaria mais ligado ao papel do sêmen como “forma” e ao corpo materno como “matéria”, tentando entender desenvolvimento e semelhança sem falar em partículas corporais viajando diretamente. Embora essas ideias sejam antigas e cheias de limitações, elas influenciaram a forma como a ciência pensou hereditariedade por muito tempo, especialmente por tentarem resolver o quebra-cabeça do desenvolvimento do embrião.

A partir do século XVII, com o avanço da microscopia, surgiram explicações que hoje aparecem muito em provas como exemplos de hipóteses erradas, mas historicamente importantes. Uma das mais famosas é o pré-formacionismo. Em termos simples, o pré-formacionismo afirmava que o organismo já estaria “pronto” em miniatura dentro do gameta, e que o desenvolvimento seria apenas um crescimento desse ser pré-formado. Havia duas versões principais: a que colocava o “homúnculo” no espermatozoide (espermismo) e a que o colocava no óvulo (ovismo). O ENEM gosta desse tema porque ele ajuda a contrastar duas ideias fundamentais sobre desenvolvimento: de um lado, o pré-formacionismo (tudo já está determinado e “montado” desde o começo); de outro, a epigênese (o organismo se forma progressivamente, com estruturas surgindo ao longo do desenvolvimento).

A epigênese, defendida de maneiras diferentes por vários autores, foi ganhando força porque o pré-formacionismo tinha problemas difíceis de contornar. Um deles era explicar como surgiam estruturas novas e como ocorria a diferenciação de tecidos. Outro, ainda mais constrangedor, era a “regressão ao infinito”: se um indivíduo já estava pronto em miniatura dentro do gameta, então dentro dele haveria outro gameta com outro indivíduo em miniatura, e assim por diante. Mesmo sem a linguagem moderna, essa ideia parecia pouco plausível quando levada às últimas consequências. A epigênese, por outro lado, era mais compatível com observações de embriologia, sugerindo que o organismo se organiza gradualmente.

No século XVIII e início do XIX, a pergunta sobre herança ganhou um componente novo: a variação. Não bastava explicar por que filhos se parecem com pais; era preciso explicar por que há diferenças, por que existem “misturas” de características e por que certas variações podem se acumular ao longo de gerações. Esse tema conversa diretamente com a discussão que o ENEM faz entre genética e evolução: entender como a variação aparece e se mantém é essencial para compreender seleção natural e adaptação.

Nesse cenário, uma explicação muito influente foi a “herança por mistura”, uma espécie de senso comum científico da época. A ideia era que as características parentais se combinariam como líquidos que se misturam, gerando uma “média” no descendente. Essa hipótese parece razoável à primeira vista, porque de fato muitas características humanas mostram variação contínua (como altura e cor da pele). Porém, ela tem um problema lógico sério: se tudo sempre se mistura em média, as variações extremas tenderiam a desaparecer com o tempo, o que não combina bem com a persistência de diferenças marcantes em populações e com a possibilidade de certos traços reaparecerem depois de não serem vistos por uma geração. O ENEM pode explorar exatamente essa contradição, pedindo que você identifique por que a “mistura” não explica o reaparecimento de fenótipos.

Já no século XIX, com Darwin e o debate evolucionista, surgiu outra tentativa de resolver hereditariedade e variação ao mesmo tempo: a pangênese. Darwin propôs que o corpo liberaria pequenas unidades (às vezes chamadas de “gêmulas”) que viajariam até as células reprodutivas e seriam transmitidas aos descendentes. Essa ideia queria ser um modelo geral, capaz de explicar semelhança, variação e até a herança de características adquiridas. Ela é importante para o ENEM por dois motivos. Primeiro, porque mostra que Darwin precisava de um mecanismo de herança para sustentar a seleção natural (sem herança, não há como acumular variações ao longo do tempo). Segundo, porque a pangênese é um ótimo exemplo de como a ciência constrói hipóteses plausíveis com base no que se sabe em uma época, mas depois abandona essas hipóteses quando surgem evidências e modelos melhores.

Um ponto que costuma confundir alunos é a relação entre essas ideias e o lamarckismo. Lamarck ficou famoso pela noção de que o uso e desuso de órgãos, além da adaptação ao ambiente, poderiam gerar mudanças herdáveis. Hoje sabemos que isso não explica a genética como regra geral, mas historicamente a hipótese fazia sentido em um período em que o mecanismo de herança era desconhecido. Em questões do ENEM, a dica é perceber que as concepções pré-mendelianas frequentemente tentavam ligar mudanças do corpo ao que seria herdado, enquanto a genética mendeliana, mais tarde, estabeleceu uma separação conceitual muito forte entre “o que acontece no corpo ao longo da vida” e “o que é transmitido via gametas” (mesmo que existam discussões modernas sobre epigenética, o que não invalida a lógica central de Mendel para herança de alelos).

Tudo isso prepara o terreno para entender por que Mendel foi um marco. O mundo pré-mendeliano tinha ideias fortes, mas faltava um método quantitativo que conectasse observação a previsão. Mendel entrou em cena com um conjunto de escolhas científicas muito inteligentes: ele selecionou características discretas (amarela/verde, lisa/rugosa), trabalhou com linhagens puras, controlou cruzamentos e, principalmente, contou descendentes em grande número. Ao fazer isso, ele mostrou que a herança não era “por mistura”, mas sim por unidades que se mantêm e se separam, permitindo que características reapareçam. Em termos de prova, a grande virada é entender que as teorias anteriores tinham dificuldade em explicar reaparecimento e proporções, enquanto Mendel apresentou um modelo com capacidade preditiva.

Para o ENEM, vale fixar a ideia de que a história da genética não é uma sequência de “erros bobos” até chegar ao acerto. É um caminho de tentativas de explicação com base no que era observável e mensurável em cada época. O pré-formacionismo e a herança por mistura parecem estranhos hoje, mas eram respostas coerentes para perguntas reais feitas sem a informação que temos atualmente. O salto de Mendel foi combinar experimento controlado e matemática simples para tratar herança como algo testável. Isso é ciência funcionando: hipóteses, evidências, revisão e consolidação de modelos.

Se você quiser usar isso como estratégia de resolução no ENEM, pense assim: quando uma questão mencionar ideias antigas, identifique qual problema elas não resolvem bem. A herança por mistura falha em explicar o retorno de fenótipos recessivos e a manutenção de variações. O pré-formacionismo falha em explicar a formação progressiva e a diferenciação. A pangênese tenta explicar herança e adaptação, mas não encontra suporte quando se entende melhor a separação entre células somáticas e germinativas e, mais tarde, quando genes e cromossomos entram no modelo. A genética mendeliana, por sua vez, resolve de forma elegante a transmissão de características discretas e cria uma base para a genética moderna.

SIMULADO ENEM

Questão 1

Uma hipótese de herança muito difundida antes de Mendel afirmava que as características dos pais se combinavam nos descendentes como líquidos que se misturam, produzindo fenótipos intermediários e reduzindo variações extremas ao longo das gerações. Um problema lógico dessa hipótese é que ela não explica adequadamente

A) a semelhança entre pais e filhos em características dominantes

B) o reaparecimento de características que não se manifestaram na geração anterior

C) a influência do ambiente na expressão de certas características ao longo da vida

D) o desenvolvimento embrionário ocorrer por crescimento e não por divisão celular

E) a existência de variação contínua em características como altura

Gabarito: B

Comentário de resolução: a herança por mistura prevê “diluição” de variações e tende a eliminar extremos, dificultando explicar por que um traço pode desaparecer em uma geração e reaparecer na seguinte. A lógica mendeliana, com unidades hereditárias que se segregam, resolve esse ponto.

Questão 2

O pré-formacionismo defendia que o organismo estaria pronto em miniatura dentro do gameta, sendo o desenvolvimento apenas um processo de aumento de tamanho. Uma crítica clássica a essa concepção envolve

A) a impossibilidade de ocorrer fecundação em organismos terrestres

B) a incapacidade de explicar o crescimento do embrião em ambientes aquáticos

C) a dificuldade em justificar a formação progressiva de estruturas e a diferenciação tecidual

D) a ausência de qualquer relação entre gametas e herança de características

E) a falta de observação de espermatozoides em microscópios antigos

Gabarito: C

Comentário de resolução: se tudo já estivesse “montado” em miniatura, seria difícil explicar como novas estruturas surgem ao longo do desenvolvimento e como células se diferenciam para formar tecidos e órgãos. A epigênese é mais compatível com a formação progressiva observada na embriologia.

Questão 3

Darwin propôs a pangênese como tentativa de explicar a transmissão de características e sua relação com a evolução. Nessa hipótese, pequenas unidades produzidas pelas partes do corpo contribuiriam para a composição dos gametas. Essa concepção se aproxima, historicamente, da ideia de que

A) características adquiridas poderiam ser transmitidas aos descendentes

B) apenas o pai determina geneticamente o fenótipo do filho

C) o embrião já está totalmente formado no óvulo desde a fecundação

D) a herança ocorre exclusivamente por mistura de “sangues” parentais

E) a seleção natural elimina completamente a variabilidade genética

Gabarito: A

Comentário de resolução: a pangênese supõe contribuição das partes do corpo para os gametas, o que abre espaço para a noção de herança de características adquiridas. Isso dialoga com explicações pré-mendelianas e com debates do século XIX sobre hereditariedade e evolução.

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