Variação linguística é o coração vivo da língua portuguesa. Pessoas diferentes falam diferente porque pertencem a regiões, grupos, idades e situações diferentes. O ENEM cobra exatamente essa perspectiva: entender a língua como prática social, reconhecer adequação ao contexto e interpretar textos sem preconceito. Norma culta, por sua vez, é o conjunto de usos convencionados em contextos formais de escrita e fala pública. Na prova, o foco não é decorar regras isoladas, mas saber quando e por que usar cada variedade.
Pense assim: a pergunta central do ENEM é “esta forma de dizer está adequada ao gênero, ao público e ao objetivo?”. Se a resposta for sim, a variação faz sentido. Se a resposta for não, identifique o conflito de registro. É com essa lente que você lê tirinhas, notícias, posts, charges, poemas e anúncios.
Comece pelo conceito. Variação linguística é a mudança sistemática no vocabulário, na pronúncia, na morfologia e na sintaxe conforme fatores sociais e situacionais. A norma culta não é a única variedade legítima; é a variedade preferida em contextos formais. O ENEM valoriza compreender a diversidade, não corrigi-la automaticamente.
Há cinco eixos clássicos para organizar o estudo. 1) Variação diatópica: diferenças por região, como “aipim”, “macaxeira”, “mandioca”. 2) Variação diastrática: diferenças por grupos sociais, como jargões profissionais e gírias de juventude. 3) Variação diafásica: ajustes por situação, do informal ao formal, com redução ou ampliação de marcas de oralidade. 4) Variação diacrônica: mudanças ao longo do tempo, como “voar” usado metaforicamente em “o tempo voa”. 5) Variação diamesia: diferenças de canal, como fala espontânea, texto impresso, mensagem instantânea.
Na prática da prova, você encontra enunciados que pedem para reconhecer a intenção do autor ao usar uma variedade. Uma personagem usando “pra”, “tá” e “cê” não está “errada”: está caracterizada em registro informal. Um editorial que emprega “portanto” e “contudo” busca formalidade e argumentação estruturada. O que se avalia é a pertinência da escolha, não uma hierarquia moral entre formas.
Norma culta serve de referência para textos acadêmicos, jornalísticos formais e documentos oficiais. Ela prioriza concordância plena, regência padronizada, pronomes em posição tradicional, seleção lexical precisa e pontuação controlada. Em contrapartida, a conversação cotidiana tem cortes, repetições, elipses e marcadores como “tipo”, “né”, “daí”. O ENEM espera que você identifique essas pistas e compreenda seus efeitos de sentido.
É comum aparecerem questões com estilo direto e indireto, marcas de oralidade e humor. A quebra de uma regra da norma culta pode produzir proximidade, ironia ou verossimilhança. Em memes e anúncios, o uso propositadamente “errado” pode chamar atenção, reforçar identidade de grupo ou criar ritmo. A tarefa é explicar o efeito, não “consertar” o texto.
Para ler com eficiência, faça um diagnóstico rápido do gênero e do contexto. 1) Quem fala e para quem fala. 2) Onde circula o texto. 3) Qual objetivo comunicativo. 4) Quais marcas linguísticas aparecem. 5) Qual efeito de sentido produzido pela variação. Esse mapa guia sua interpretação e ajuda a eliminar alternativas que confundem adequação com erro.
Na produção de texto, a redação do ENEM pede norma padrão, mas sem artificialidade. Frases claras, conectores funcionais, vocabulário preciso e ausência de gírias resolvem. Se você quiser citar fala coloquial como exemplo dentro do texto, sinalize com aspas e comente o efeito, mantendo sua própria voz na norma culta.
Há tópicos recorrentes que a banca adora explorar. 1) Preconceito linguístico: julgar pessoas pela variedade que usam é discriminação; o ENEM critica essa prática. 2) Polifonia e heterogeneidade: um texto pode mesclar registros para produzir nuance. 3) Multimodalidade: imagem + linguagem verbal + tipografia compõem o sentido, especialmente em gêneros publicitários. 4) Intertextualidade: a reescrita de ditados populares ou hibridização de fórmulas fixas ativa repertório cultural.
Perceba também a variação lexical e semântica. Palavras mudam de sentido conforme região e época. “Rapadura” pode virar metáfora de dureza; “debate” pode significar tanto evento formal quanto discussão em rede social. A chave é sempre o contexto, não um significado “fixo” de dicionário.
Sobre concordância e regência, a prova tende a priorizar uso real. Você pode encontrar “a gente vamos” em fala representada; isso caracteriza personagem e situação, sem afetar sua competência leitora. Se a pergunta cobrar adequação a um edital, aí sim a norma culta exige “nós vamos” ou “a gente vai”. A resposta depende da cena enunciativa apresentada.
Faça um repertório de marcas úteis para identificar registros. 1) Conectores formais: portanto, contudo, ademais, outrossim. 2) Marcadores conversacionais: tipo, então, aí, né. 3) Pronominalização: “lhe”, “o”, “a” na escrita formal; “ele”, “ela” anafóricos soltos na fala. 4) Vocabulário técnico: termos de áreas específicas que pedem explicação quando o público é geral. 5) Grafia estilizada: repetição de letras, caixa alta, onomatopeias para imprimir emoção.
Outra frente importante é reconhecer como a variação produz humor. Tirinhas e memes se apoiam em contraste entre expectativa formal e quebra informal. A graça pode nascer do deslocamento de um termo chique em situação banal, ou do uso de palavrão para romper solenidade. Explique esse choque quando a pergunta pedir o “efeito de sentido”.
Evite um equívoco frequente: achar que norma culta e clareza são sinônimos absolutos. É possível escrever com norma culta e ainda assim ser obscuro. É possível falar informalmente com grande clareza. O ENEM valoriza clareza + adequação. A norma é um recurso; o objetivo é comunicar bem em cada situação.
Para consolidar o estudo, transforme leitura em rotina de comparação. Leia um parágrafo de notícia e uma postagem sobre o mesmo tema. Observe diferenças de escolha lexical, de conectores, de pronomes e de organização. Anote o que muda no efeito de sentido. Essa prática treina o seu olhar para reconhecer variação sem preconceito.
Agora, algumas estratégias práticas para a prova. 1) Ao ver uma alternativa que “corrige” a fala de personagem, desconfie: normalmente, o foco é o porquê daquela fala e seu papel no texto. 2) Quando a questão fala em adequação, pense no gênero e no público antes de qualquer regra. 3) Se houver referência a preconceito linguístico, explique por que a diversidade é constitutiva da língua e como o texto aborda isso.
Também vale um checklist rápido para a redação. 1) Evite gírias e abreviações. 2) Prefira conectores funcionais a enfeites. 3) Revise concordância e regência. 4) Garanta paragrafação e progressão lógica. 5) Use exemplos claros e comente o efeito de linguagem quando pertinente.
Para fixar conteúdos, monte um glossário pessoal. 1) Variação diatópica: regional. 2) Diastrática: social. 3) Diafásica: situacional. 4) Diacrônica: histórica. 5) Diamesia: canal. 6) Norma culta: padrão formal. 7) Registro: grau de formalidade de uma interação. 8) Preconceito linguístico: julgamento social travestido de correção. 9) Adequação: ajuste entre forma, função e contexto. 10) Multimodalidade: integração de códigos no mesmo texto.
Finalmente, lembre que o ENEM gosta de textos que tematizam a própria língua. Manuais de linguagem inclusiva, notícias sobre mudanças ortográficas, discussões sobre pronome neutro e pautas sobre ensino de português podem aparecer. Nessas situações, concentre-se em identificar o posicionamento do texto, os argumentos, os exemplos e a variedade destacada. Sua análise deve descrever como as escolhas linguísticas sustentam o ponto de vista.
Se você mantiver esse olhar sociolinguístico aliado à técnica de leitura, terá segurança para resolver questões que parecem “gramáticais” mas, na verdade, cobram interpretação. A língua portuguesa, na prova, não é museu: é prática social, viva, variada e estratégica.
Agora coloque tudo em ação com um simulado curto e comentado.
SIMULADO ENEM
Questão 1 – Adequação e efeito de sentido
Um anúncio de uma rede de lanches usa o slogan “Tá com fome? Cola que é sucesso!”. Considerando variação linguística e objetivo do gênero, a escolha do registro informal produz principalmente:
A) erro gramatical que compromete a compreensão do público
B) aproximação com o público-alvo e construção de identidade jovem
C) neutralidade estilística para alcançar todas as faixas etárias
D) reforço de autoridade institucional por meio da norma culta
E) apagamento de traços regionais para padronizar a comunicação
Comentário de resolução: o anúncio busca persuadir e se aproximar de um público jovem; a informalidade cria proximidade e identidade de grupo. Não se trata de erro, mas de estratégia. A correta é B.
Questão 2 – Reconhecimento de variedades
Leia o trecho de uma crônica: “A gente ia indo, conversando fiado, quando deu aquela chuvinha miúda que refresca a tarde.” Assinale a alternativa que melhor explica o papel das marcas “a gente”, “ia indo” e “conversando fiado” no texto.
A) Indicam desconhecimento das normas de concordância pelo autor
B) Funcionam como jargão técnico típico de textos acadêmicos
C) Caracterizam oralidade e informalidade, produzindo tom de conversa
D) Produzem contradição semântica que inviabiliza a leitura
E) Correspondem a arcaísmos diacrônicos da norma culta clássica
Comentário de resolução: as escolhas aproximam narrador e leitor, com marcas de oralidade e registro coloquial típicos do gênero crônica. A correta é C.
Questão 3 – Norma culta e contexto de circulação
Um edital universitário apresenta: “Os candidatos deverão comprovar proficiência até 30 de novembro.” Considerando norma culta e adequação, qual reescrita mantém o sentido e preserva o registro formal?
A) “A galera tem que provar proficiência até 30 de novembro.”
B) “Os candidato vai ter que provar proficiência até 30 de novembro.”
C) “É pra comprovar proficiência até 30 de novembro, beleza?”
D) “Os candidatos devem comprovar proficiência até 30 de novembro.”
E) “Os mano precisam levar a prova de proficiência até 30 de novembro.”
Comentário de resolução: a alternativa D mantém o verbo no presente do indicativo (“devem”), plural concordante e léxico formal, apropriado ao gênero edital. As demais adotam coloquialismos ou incorreções que não cabem no contexto institucional.
Com esses princípios, você lê melhor, escreve com segurança e transforma variação linguística e norma culta em vantagem competitiva no ENEM.

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