Se você quer ir bem na prova de Linguagens e Códigos do ENEM, precisa dominar duas frentes que andam de mãos dadas: construção textual (como escrever com clareza, coesão e propósito) e recepção de textos (como ler, interpretar e avaliar diferentes gêneros). Este artigo didático reúne técnicas de escrita e de leitura estratégicas, com linguagem simples, exemplos práticos e um SIMULADO ENEM no final. Palavras-chave como construção textual, recepção de textos, técnicas de escrita e ENEM aparecem ao longo do texto para orientar seu estudo.
1) O que é “construção textual” no contexto do ENEM?
Construção textual é o processo de planejar, redigir e revisar um texto de modo que ele cumpra um objetivo comunicativo claro para um público e um gênero específicos. No ENEM, isso aparece de duas formas:
- Na interpretação: reconhecer como um texto foi construído (estrutura, linguagem, marcas de coesão, elementos multimodais) ajuda a entender o sentido global.
- Na produção: embora a redação do ENEM seja avaliada em outra parte, as competências de coesão, coerência, repertório e adequação são as mesmas que você precisa para ler melhor e justificar respostas.
Ideia-chave: todo texto nasce de intenção + público + gênero + contexto. Quem escreve escolhe o que dizer (conteúdo), como dizer (forma) e para quem (interlocutor), e isso molda vocabulário, estrutura e marcas linguísticas.
2) Planejamento rápido: objetivo, recorte e estrutura
Antes de escrever (ou para entender um texto alheio), responda:
- Objetivo: informar, argumentar, instruir, emocionar, vender ideia?
- Público: geral, especializado, jovem, idoso?
- Gênero: notícia, artigo de opinião, charge, infográfico, resenha, manual, propaganda?
- Recorte: qual aspecto do tema será explorado? Evite generalizações vagas.
Estrutura base (para textos expositivos/argumentativos):
- Introdução: apresenta tema e tese (ou objetivo).
- Desenvolvimento: parágrafos com ideia central + explicação + evidência/exemplo.
- Conclusão: retoma o essencial e fecha com síntese, consequência, proposta ou chamada à reflexão.
Modelo de parágrafo (tríade “o quê + por quê + como”)
- Frase-tópico (o quê): ideia central do parágrafo.
- Explicação (por quê): esclarece a razão/relaciona ao tema.
- Exemplo/prova (como): dado, citação, caso, comparação, imagem, estatística.
3) Coesão e coerência: a cola do texto
- Coerência: sentido global consistente. As ideias se encaixam? Há contradições?
- Coesão: mecanismos linguísticos que ligam frases e parágrafos.
Principais mecanismos de coesão:
- Referência/Substituição: A escola… ela… a instituição… (evita repetição e mantém o referente).
- Elipse: omissão do já sabido: “(Eu) Estudei; (eu) passei.”
- Conectores (valem ouro no ENEM):
- Aditivos: e, além disso, também
- Adversativos: mas, porém, contudo, entretanto
- Causais: porque, pois (antes do verbo), visto que
- Consecutivos: portanto, logo, por isso, de modo que
- Concessivos: embora, mesmo que, ainda que
- Comparativos/Conformativos: como, tal como, conforme
- Temporais: quando, enquanto, antes, depois
- Conclusivos/Explicativos: portanto / porque (após o verbo)
- Aditivos: e, além disso, também
Exemplo – melhorando coesão
Frase solta: “A leitura é importante. Muitas pessoas não leem.”
Versão coesa: “Embora a leitura seja importante, muitas pessoas ainda não leem com frequência, o que compromete o desenvolvimento do pensamento crítico.”
4) Progressão temática e paragrafação
Um texto eficaz progride do tema (o conhecido) para o rema (a nova informação). Em cada parágrafo:
- Frase-tópico sinaliza o tema.
- Detalhamento e evidências trazem o rema.
- Fecho do parágrafo conecta ao próximo (gancho lógico).
Erros comuns: abrir parágrafos sem foco; misturar muitos tópicos em um só; concluir sem amarrar com a tese.
5) Adequação ao gênero e ao leitor
Recepção de textos começa pela identificação do gênero: o que o texto é, para que serve, como costuma ser organizado e em que suporte circula. No ENEM, aparecem:
- Textos jornalísticos: notícia (informar), reportagem (aprofundar), artigo de opinião (argumentar).
- Textos publicitários: persuadir/convencer; uso de apelos, imagens, slogans.
- Textos instrucionais: manuais, tutoriais, receitas; linguagem imperativa e clara.
- Textos literários: efeitos estéticos, metáforas, vozes narrativas, tempo e espaço.
- Textos multimodais: infográficos, charges, memes; integram linguagens verbal, visual e, às vezes, sonora (em links/QR).
Dica de ouro: em cada leitura, monte um mapa de gênero:
- objetivo; 2) público; 3) estrutura; 4) marcas linguísticas; 5) recursos visuais; 6) contexto de circulação.
6) Leitura ativa: técnicas para a recepção de textos
Para acertar as questões de recepção de textos:
- Escaneie o texto: título, subtítulo, autoria, data, fonte, imagens, legendas, gráficos, destaque tipográfico.
- Localize a tese/ideia central.
- Rastreie conectores e substituições pronominais para entender relações de causa, contraste e conclusão.
- Observe o não dito (inferência): ironia, pressupostos, intertextualidade (citações, paródias), contexto social/histórico.
- Se for multimodal: interprete texto + imagem + gráfico como um conjunto; legenda e escala importam.
- Leia as alternativas antes de reler o texto: isso orienta sua busca de evidências.
7) Técnicas de escrita eficaz: clareza, concisão e estilo
- Clareza: frases curtas; sujeito próximo do verbo; termos concretos; evite jargões desnecessários.
- Concisão: corte redundâncias (“subir para cima”, “planejamento prévio”); prefira verbos fortes a adjetivos vagos.
- Variedade sintática: alterne períodos simples e compostos; use orações subordinadas com parcimônia.
- Precisão vocabular: escolha palavras exatas; substitua “coisa” por termos específicos.
- Exemplificação e analogia: tornam abstratos mais compreensíveis.
- Coerência de tempo e pessoa: não oscile entre 1ª e 3ª pessoas sem motivo.
- Revisão estratégica: leia em voz alta; sublinhe conectores; verifique concordância, regência, pontuação.
Mini-roteiro de revisão (checklist):
[ ] Tese/objetivo explícito?
[ ] Parágrafos com frase-tópico?
[ ] Conectores adequados e variados?
[ ] Exemplos/dados suficientes?
[ ] Conclusão que amarra a tese?
[ ] Correção gramatical e padronização?
[ ] Adequação ao gênero e ao público?
8) Exemplo prático: antes e depois
Antes (confuso):
“Hoje em dia a internet é muito importante e as pessoas usam bastante e tem problema também porque as fake news atrapalham e as pessoas acreditam sem pensar direito e isso gera muitos problemas na sociedade.”
Depois (claro e coeso):
“A expansão do acesso à internet ampliou a circulação de informações. Contudo, a disseminação de fake news compromete o debate público, pois muitos usuários compartilham conteúdos sem verificação. Para reduzir esse impacto, é essencial promover educação midiática, incentivando a checagem de fontes e o consumo crítico de notícias.”
O texto reescrito traz: frase-tópico, contraste, causa, proposta e conclusão implícita.
9) Como treinar para o ENEM (construção textual + recepção de textos)
- Faça resumos e paráfrases: treina compreensão e síntese.
- Reescreva parágrafos trocando conectores (mude “mas” por “no entanto”; experimente “embora”).
- Analise gêneros reais (notícia, anúncio, infográfico) e responda: objetivo? público? marcas linguísticas?
- Produza microtextos (100–150 palavras) com uma única função: explicar, comparar, instruir, opinar.
- Crie um banco de conectores e tente usá-los com propósito, não por enfeite.
- Resolva questões antigas do ENEM e anote o que te fez eliminar cada alternativa.
- Revise gramática aplicada (pontuação, concordância, regência, crase) para embasar a coesão.
10) Erros que mais derrubam pontos
- Repetição vazia de ideias (encheção de linguiça).
- Conectores mal empregados (“portanto” para contrastar; “porém” para concluir).
- Generalização sem prova (“todo mundo pensa assim”).
- Desrespeito ao gênero (texto publicitário com tom acadêmico, por exemplo).
- Ignorar o visual em textos multimodais (desprezar legenda, escala, fonte).
11) Mapa mental de emergência (para a véspera)
- Propósito + Público + Gênero → define tom e estrutura.
- Introdução clara → Desenvolvimento com “o quê + por quê + como” → Conclusão que amarra.
- Coesão: conectores certos + referência sem ambiguidade.
- Coerência: progressão lógica + consistência temática.
- Recepção de textos: leia o conjunto (verbal + visual), procure a tese e a função do gênero.
SIMULADO ENEM
Questão 1 – Gênero e propósito (recepção de textos)
Um cartaz de campanha pública apresenta a imagem de um copo descartável sobre um mapa de um rio. O slogan diz: “O que você joga fora não vai embora”. Abaixo, lê-se: “Reduza, Reuse, Recicle – Prefeitura Municipal”.
O propósito principal do texto é:
A) relatar uma pesquisa sobre poluição hídrica.
B) instruir tecnicamente sobre coleta seletiva.
C) sensibilizar o público para uma prática ambiental.
D) vender produtos biodegradáveis certificados.
E) ironizar ações de limpeza promovidas por ONGs.
Comentário de resolução:
Estamos diante de um texto publicitário institucional (campanha pública) com apelo persuasivo e linguagem multimodal (imagem + slogan). A função predominante é convencer/sensibilizar o público a adotar práticas sustentáveis (redução, reúso, reciclagem). Não há relato de pesquisa (A), nem instrução técnica detalhada (B). Não é venda de produto (D) nem ironia a ONGs (E).
Gabarito: C.
Questão 2 – Coesão e conectores (construção textual)
Leia o período:
“Os estudantes ampliaram o repertório crítico; portanto, passaram a divergir de professores e colegas com mais frequência.”
A troca do conector portanto por contudo produziria que efeito?
A) Manteria a relação de consequência, sem alterar o sentido.
B) Transformaria a relação em oposição/contraste, alterando o sentido.
C) Introduziria uma explicação da informação anterior, ampliando a causa.
D) Estabeleceria uma comparação entre termos, reforçando a semelhança.
E) Criaria uma relação temporal, indicando simultaneidade das ações.
Comentário de resolução:
“Portanto” é conclusivo/consecutivo (consequência). “Contudo” é adversativo (contraste). A troca muda a relação lógica: deixa de ser consequência e vira oposição.
Gabarito: B.
Questão 3 – Reescrita com manutenção de sentido (técnicas de escrita)
Texto-base:
“A leitura crítica é essencial; sem ela, multiplicam-se boatos nas redes e prejudica-se o debate público.”
Qual reescrita mantém o sentido e melhora a clareza e a coesão?
A) “A leitura é crítica e essencial, multiplicando boatos nas redes e prejudicando o debate público.”
B) “A leitura crítica é essencial; caso contrário, boatos se multiplicam nas redes e o debate público é prejudicado.”
C) “A leitura crítica é essencial, por isso multiplicam-se boatos nas redes e prejudica-se o debate público.”
D) “Sem leitura crítica, nada funciona nas redes, e o debate público acaba.”
E) “A leitura crítica é essencial, entretanto boatos se multiplicam nas redes e o debate público é prejudicado.”
Comentário de resolução:
A versão que preserva a relação condicional do original (“sem ela” = “caso contrário”) e organiza o período com clareza é a letra B.
- A) altera o sentido (parece dizer que a leitura gera boatos).
- C) usa “por isso” (conclusão) de modo incoerente com a ideia condicional.
- D) exagera e distorce.
- E) “entretanto” (oposição) não condiz com a lógica do período.
Gabarito: B.
ConclusãoPara brilhar na prova de Linguagens e Códigos do ENEM, treine diariamente a construção textual e a recepção de textos: planeje propósito e público, escreva com coesão e coerência, revise com atenção aos conectores e à progressão das ideias, e leia ativamente identificando gênero, objetivo e pistas multimodais. Com essas técnicas de escrita e de leitura, você ganha velocidade, segurança e precisão — e transforma conhecimento em pontuação.

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